ALENQUER, UMA SAUDADE!
José Wilson Malheiros .*
Meu amigo, como demorei em escrever alguma coisa sobre Alenquer, como combinamos. Mas, se a demora foi grande não é menor minha admiração por essa terrinha que tão bem me acolheu e eu não poderia deixar de contar meu caso de amor, com aquela flor plantada às margens do Suribiú.
A primeira vez que fui à Alenquer foi num passeio do Dom Amando. Chegamos nós, em uma manhã de sol sorridente e fui encaminhado para a casa do Sr. Megale, onde me trataram como um rei. À noitinha, Leopoldino me levou à sua residência para conhecer dona Sibila e para um jantar temperado com amizade. Jamais esquecerei essa experiência de adolescente.
Foi a primeira vez que encostei um cigarro na boca, já que estava ali, “escondido” do meu pai e, portanto, podia comprar com os trocados que ele me deu, no bar Blue Star , uma carteira de Aspirante e para que eu me sentisse “mais homem”, como era de praxe em nossos tempos de colegial. Foi, realmente, uma experiência inesquecível, meu caro colega, esse passeio a Alenquer.
Anos após, já com 20 anos, cheguei a tera ximanga também numa bela manhã de sol, trazido pela inesquecível lanha Marilita e seu passo de jabuti, por causa da lenha verde que utilizava como combustível naquela e em outras tantas viagens. Nunca me saiu da memória: na véspera, em torno de seis e meia da tarde, deixei minha mãe chorando na porta de casa e fui levado para bordo da lanha pelo meu pai, que atou a rede, me deu algum dinheiro e me disse: “Agora é contigo! Boa tarde! ”
Confesso que nossos olhos marejaram na ocasião: o por do sol, a despedida, o apito da lanha, a nova vida que vinha pela frente, tudo contribuiu para a emoção.
Quando o barco zarpou, deitei na rede e comecei a chorar. Ali eu deixava de ser adolescente e me tornava um homem de verdade. Ia ser funcionário do Banco do Brasil em Alenquer. Tomei posse na velha agência ali na Colombiano Marvão, perto da casa da dona Laurieta, próximo ao Megale, ao Cláudio Guimarães, à casa do Atiço, ao Cartório da dona Onezífora, ao belo prédio do Grupo Escolar, aliás, perto de tudo, que tua terra era tão pequenina que nós nos sentíamos como dentro de uma casa só, cheio de amizade, tanto era a fidalguia com a qual nos distinguiam, meu amigo.
Ah! Quantas saudades desses tempos inocentes na tua terra natal...
Vou desfiando lembranças, como elas vão surgindo, agora, na memória. Nunca esqueci da imagem do Bené Monteiro ( Internacional, u puvu de Alenquer te aclama... bonito ), desfilando pela rua todo sujo e humilhado como se fosse um criminoso, só porque havia cometido o crime de ser patriota, mas de um modo diferente dos que estavam, estão, na linha dura do poder.
Jamais vou esquecer, também, aquelas marcas de balas na delegacia, cicatrizes eternas da chacina do homem que ousou enfrentar os balateiros ... E os comícios acalorados (que quase sempre, terminavam em “porradas”)..., e o sax do Oracílio, o trombone do China, as festas folclóricas do Nego, o Leal do mercado, o bar do Senado, o Valete...ih!, rapaz, a “Chica Loura”...
O Internacional, O União, o Santa Cruz (construída só de moças da sociedade alenquerense), o Frei Francisco, a Festa de Santo Antonio, o arraial animado, o poço da dona Colo lá no fim da rua, onde tomávamos banhos no fim de tarde... E já que eu falei em banho, me lembrei do velho Miléo na beira do rio, das pescarias no fim da ponte do Trapiche, dos “assustados” carnavalescos, os carapanãs da rua da frente, na “boca da noite...” A rivalidade entre Aningal e Luanda ... o Pacoval, o lindíssimo lago do Curumum e suas arraias, o Mesquitinha Bar, o bar do Teixeira (que uma tarde foi invadida pelo Elizeu, a cavalo. Todo mundo correu e ele levou as bolas de sinuca...)
Pois é, amigo. As lembranças são tantas. Tantas mesmo, que eu não resisti e fiz um poema em homenagem à nossa (sim, nossa, pois não vou deixar só pra ti, não) Alenquer.
ALENQUER, QUANTA SAUDADE
DA MINHA TERRA NATAL
DE REVER MINHA CIDADE
E SEU POVO CORDIAL.
SANTO ANTONIO ALENQUERENSE,
MÊS DE JUNHO, NO ARRAIAL,
TINHA TUDO, AH! NEM PENSE!
NESSA FESTA SEM IGUAL.
SANTO ANTONIO DE ALENQUER,
ARRAIAL DO MÊS DE JUNINO
VOU REVER-TE, SE PUDER,
AH!... MEUS TEMPOS DE MENINO.
VOU TOMAR BANHO, NADAR,
LÁ NO RIO SURUBIÚ,
VOU VER A GARÇA POUSAR
NO LAGO DO CURUMUM ...
VOU REVER MINHAS LEMBRANÇAS
NA LUANDA E NO ANINGAL,
MINHAS BEM-AVENTURANÇAS,
ALENQUER, NÃO TENS IGUAL!
Belém-Pa, 13 de junho de 2004.
* JOSÉ WILSON MALHEIROS , Juiz do trabalho, aposentado, professor universitário, membro da Academia Paraense de Letras, compositor, santareno de nascença e alenquerense de coração.